Terça-feira, Maio 15, 2012
A ATRIZ JUSSILENE SANTANA LANÇA LIVRO
SOBRE TEATRO E JORNALISMO
NA TRAVESSA DO LEBLON
JUSSILENE SANTANA - CINEMA e DOUTORADO
JUSSILENE SANTANA - FORMAÇÃO
PROFISSIONAL e TEATRO
O LIVRO “IMPRESSÕES MODERNAS”
SERVIÇO
CONTATO
ASSESSORIA DE IMPRENSA
Sexta-feira, Março 02, 2012
Jussilene Santana na MUITO - fevereiro de 2012

Jornal A Tarde, Revista MUITO
05 de fevereiro de 2012
Abre Aspas - JUSSILENE SANTANA, Atriz e pesquisadora
“Salvador é cheia de mistérios a decifrar”
Texto Cássia Candra; Foto Raul Spinassé
Quem vê a moça simpática de gestos simples não a imagina brava em cena. Com a mesma garra com que defendeu Bastos, personagem de Budro, que lhe rendeu o prêmio Braskem de Teatro 2004 de Melhor Atriz,[1] a intérprete, jornalista e professora Jussilene Santana, 35, estava de volta à arena, na última terça-feira (31/01). Desta vez, em defesa de sua tese de doutorado em artes cênicas, Martim Gonçalves: Uma Escola de Teatro contra A Província, que mostra o porquê do afastamento do diretor da Escola de Teatro da Ufba, instituição que criou e administrou entre 1956 e 1961. Orientada pelo professor Ewald Hackler – que a dirigiu em Senhorita Júlia, de August Strindberg –, ela esquadrinha o imaginário da intelectualidade da época e bebe em fontes que vão do Centro de Estudos Afro-Orientais à Fundação Rockefeller, em Nova York. No caminho, Jussilene se depara com outros mistérios, que a levam a conclusões contundentes. “Foi como destampar a porta do inferno”, diz. A pesquisa é só parte da rotina incomum desta moça, que ainda inclui os projetos do Teatro Nu, do qual é cofundadora, da Universidade Veiga de Almeida (Rio de Janeiro), onde ensina, e de intervenções no teatro e cinema.
O teatro arrebatou a pesquisadora?
Desde que entrei no ambiente cultural baiano, fiz as duas coisas, jornalismo e teatro. Venho de uma família muito humilde. Meu pai saiu do interior para vender farinha, frutas e verduras em um pequeno comércio em São Caetano. Sempre estive nessa posição de ter que trabalhar, mas minha mãe me incentivava a estudar. Eu tinha sonhos, sonhos impossíveis para uma menina de São Caetano. A Escola Técnica (atual IFBA) foi um atalho, abriu meus olhos para a cidade. Depois, veio a escolha pelo jornalismo e, simultaneamente, o teatro.
E o interesse por Martim Gonçalves?
Sempre ouvi falar em Martim Gonçalves. Extremamente mal e extremamente bem. Era o herói que havia trazido a vanguarda para a Bahia ou o vilão, um reacionário que trabalhava apenas com teatro clássico ocidental e queria empurrar um gosto colonizador a Salvador. Nunca consegui entender o meio-termo.
Foi isso que a levou à pesquisa?
Sim. Ouvi muita gente que viveu, estudou, trabalhou ou assistiu Martim Gonçalves e fui colhendo informações. Quando entrei no mestrado, sobre a cobertura do jornalismo baiano, orientada por Albino Rubim, hoje secretário da Cultura, vi a campanha contra Martim ser executada pelos jornais baianos. Quando veio para a Bahia, ele foi acolhido por uma elite cultural – e veio por conta dessa elite –, mas, por uma série de motivos que estudo, ele se desentende com essa elite, que depois faz uma campanha política para afastá-lo.
Em suas andanças pelos arquivos, o que mais chamou sua atenção?
Para um pesquisador, Salvador é cheia de mistérios a decifrar. Há possibilidades de pesquisas com as quais me deparei e que não pude dar conta. Por exemplo, a influência de Odorico Tavares, diretor dos Diários Associados na Bahia, entre 1942 e 1980, na formação da mentalidade e da figura política de ACM. Também chama a atenção o fato de não haver uma pesquisa que decifre as contas da Ufba na administração Edgard Santos. Esse reitor caiu, em grande medida, por seus apoios financeiros, que a intelectualidade baiana não entendia ou não queria aceitar. Até hoje, isso não foi investigado. Nas pesquisas que fiz, vi os jornais baianos se constituindo como atores sociais, determinando a direção das instituições, apoiando, ou não, seus líderes e promovendo muita mentira, inverdades que, pelo ambiente da época, não foram checadas, mas que determinaram o que somos hoje.
Essas informações vão permitir reconstruir aquele panorama.
Sim, e reconstruir o panorama cultural dos anos 1950 e 1960 é crucial para entender a Bahia de hoje. A Ufba foi criada em 1946, mas a relação dela com as artes, aclamada e reconhecida, foi estabelecida entre 1954 e 1956, (com a criação das escolas de arte), com a criação do Museu de Arte Sacra, (em 1959), com a criação do MAM, em 1960, e do MAP, 1963. Minha pesquisa revela que a Escola de Teatro comanda (apoia/direciona) a criação das maiores instituições culturais baianas ainda hoje em ação, (sobretudo através da transferência de verbas e serviços), quebrando a ideia de que Martim Gonçalves, o seu primeiro diretor, era alienado, alheio ao que se passava em Salvador.
Ele orquestrou uma revolução?
Sem dúvida. Apoiado por muitos outros atores sociais, como Lina Bo Bardi, Agostinho da Silva e Pierre Verger. Mas a primeira coisa que me chamou a atenção foi uma carta de Lina dizendo que a famosa exposição Bahia, na V Bienal de São Paulo, de 1959, não tinha sido organizada por ela, como os jornais baianos estavam dizendo. Ela veio a público – no meio da campanha contra o diretor da Escola de Teatro – com essa carta, onde dizia: “Essa exposição foi pensada, planejada e organizada por Martim Gonçalves”. E explicava que sua participação foi mais no aspecto arquitetural, de disposição das peças. Não corrigir isso, segundo ela, poderia ocasionar um grave equívoco para a formação da memória do Estado (e foi o que infelizmente acabou acontecendo).
Até onde poderemos chegar investigando esta história?
Eu aponto mais ou menos 18 novos estudos que precisam ser realizados a partir das questões que levanto, da documentação que apresento. A Bahia que conhecemos hoje foi criada nesse período. E essas instituições, todas, em seus primórdios, tem relação com a Escola de Teatro.
O que poucos sabem sobre Martim Gonçalves e a Escola de Teatro?
Eu tinha a ideia do Martim Gonçalves adepto de estrangeirismo. Mas descobri um homem que tinha uma relação ampla com a cultura autóctone, baiana, brasileira. A grande novidade trazida pela minha tese, porém, é que há fortes indícios, documentos e declarações de que Martim, embora tivesse o apoio de Edgard Santos, tenha ido longe demais em sua independência com a Escola de Teatro. Nos anos 1960, os anos áureos da escola, ele fez um projeto e recebeu 28 mil dólares da Fundação Rockefeller – na época, um milhão e seiscentos mil cruzeiros (uma geladeira custava 100 cruzeiros).
Como era a cena na época?
Antes da chegada de Martim, existiam alguns grupos amadores (os números são muito divergentes e, até hoje, não foi feita uma pesquisa específica sobre isso). Eram amadores, e isso não é um demérito. E é isso que é preciso esclarecer, no que depois vai se construir sobre Martim. Porque muito se disse que Martim disse, exatamente depois do caos informativo realizado pelas campanhas. No fim da administração Martim Gonçalves, ele pediu que a reitoria abrisse uma comissão de investigação sobre sua administração e foi inocentado.
E o resultado dessa Comissão de Investigação nunca foi divulgado?
Nunca.
Qual a herança desse período para a cena teatral baiana?
Ficou toda a obra, só que a autoria jamais foi associada a Martim Gonçalves ou a ideia ou o apoio. Não estou falando de intelectuais de pouco fôlego. Eles não eram marionetes de Martim. Uma pessoa como Lina Bo Bardi, uma arquiteta, pensadora, ou como Pierre Verger... Eles dialogaram, foram acolhidos, foram incentivados. Pesquisadores de Agostinho da Silva, criador do Ceao, me mandaram cartas (e eu também descobri), em que ele pede apoio a Martim Gonçalves para interceder junto ao reitor Edgard Santos. Isso foi na virada de 1958 para 1959, antes da criação do Ceao. A obra continuou, mas os bastidores do processo, por conta da campanha e das rixas políticas, jamais foram associados a Martim Gonçalves.
Sua pesquisa aponta para vários caminhos. Você pensa em dar continuidade ao trabalho com Martim Gonçalves?
Tenho um acervo doado pela família, uma responsabilidade absurda. Esse acervo deve ter ficado fechado por 50 anos e, agora, ter sido aberto por mim é menos um mérito meu que um demérito a qualquer outro pesquisador. Preferimos, como sociedade organizada, ficar no disse me disse, não só com relação à história de Martim Gonçalves na Bahia, como a outras tantas em outras áreas. Quem vai ser o pesquisador, jornalista ou quem quer que seja que vai investigar as 238 escutas ilegais realizadas pelo carlismo? Eu passo a bola para outro pesquisador, porque tenho que continuar meu destino.
E qual é o seu destino?
Vou com Martim Gonçalves por onde ele for. Ele foi para São Paulo, Olinda, Recife, Nova York, Paris, e eu quero ir atrás dele, porque ele é um homem muito corajoso. Depois dessas descobertas, ele não pode voltar a receber a pecha simplória de que era um alienado. Ele era um homem independente. A Bahia tem o costume de confundir a alienação com a independência, a autoridade com o autoritarismo. E de confundir a relação mestre-aprendiz com a relação protetor-afilhado. São coisas bem diferentes. Que loucura é essa colocada dentro do imaginário do teatro baiano de que o Teatro não tem técnica? Isso é um desserviço! E se hoje me perguntam por que a cidade virou um caos, por que a cultura baiana virou um caos, só posso responder que é uma questão histórica. Se parássemos agora para reconstruir o futuro, precisaríamos antes esgotar esse lixão sobre o qual construímos a nossa memória. Não dá para construir o imaginário de Salvador em cima de um lixão. Não dá para construir em cima da desgraça, da velhacaria, da politicagem da pior espécie. Todas essas práticas continuaram numa relação política de comunicação que vem do carlismo, puxando do odoriquismo (Odorico Tavares). Eles eram coligados. Um passou suas técnicas para o outro (e minha tese defende que as técnicas são as mesmas que ainda são empregadas hoje, é a nossa “cultura política”).
Você mergulhou na pesquisa, mas é uma atriz premiada, no teatro. Como está a carreira de atriz no meio disso tudo?
Entre 2007 e 2008, quando eu estava escrevendo menos a tese, consegui participar de três filmes lançados só agora.
O que te leva por esses caminhos?
São os convites. Sempre me considerei uma comunicadora, uma pessoa que se comunica por meio da arte, do discurso objetivo ou da dramaturgia. E tenho muita sede, muitos projetos guardados. Gosto de escolher os meus convites.
Você falou desta “sede”, não dá para imaginar como concilia carreira acadêmica, arte e maternidade.
Há dias em que praticamente não durmo. Por exemplo, 2010 e 2011 foram uma selvageria. Com esta tese de doutorado tão grande, nem sei como não esqueci meu nome.
[1] No impresso saiu com uma pequena imprecisão de datas, agora corrigida. Outros comentários eventuais seguem entre parênteses.
Quinta-feira, Maio 05, 2011
Promoção 200 anos de Imprensa na BA-SUCESSO!!!

A promoção “200 Anos de Imprensa na Bahia” foi um sucesso ABSOLUTO! Foram, em menos de 24 horas, 349 pedidos do livro Impressões Modernas - Teatro e Jornalismo na Bahia!!!! Os 200 contemplados já receberam a resposta afirmativa em sua caixa de mensagem (particular e/ou facebook) e, em breve, receberão, em casa, seu exemplar. E fico imensamente feliz com o retorno carinhoso de todos. Agradeço a todos que participaram. Muito obrigada!!
Como disse no e-mail, entre outras coisas, para cada um dos 200 contemplados:
"Esse trabalho, que analisa o Jornalismo Cultural do Teatro Baiano (1956-1961), foi debatido e revisado no ambiente da graduação e da Pós-Graduação da Escola de Teatro da UFBA, das Faculdades Jorge Amado, da Facom/UFBA e da Faculdade da Cidade do Salvador, entre 2003 e 2006, mas só a partir das vendas e de eventos como esse para o grande público é que acredito que, finalmente, ele encontra seu destino.
Saber que você vai poder ler e discutir essa pesquisa é o que me faz feliz. Uma análise como essa – que se pretende de fôlego – só se completa a partir de inúmeros e atentos olhares. Portanto, se você tiver alguma observação, CORREÇÃO e orientação para fazer ao trabalho, por favor, peço que as encaminhe para o e-mail junesantana@gmail.com. Existe um projeto para uma edição revista e ampliada do Impressões Modernas e gostaria muito que você fizesse parte dele. Não se iluda. Seu nome estará nos agradecimentos do livro, posto que contribuinte para o amadurecimento do raciocínio e da memória de ambas as áreas; além de, eternamente, em meu coração de atriz-pesquisadora.
A Imprensa Baiana celebra seu aniversário no próximo dia 14 de maio. Nesses 200 anos, o teatro (da Bahia e de fora) foi um dos seus mais importantes temas. E é sobre essa relação que falamos no livro."
A Promoção 200 anos de Imprensa na Bahia é uma ação minha, com o patrocínio da Secretaria Estadual de Cultura, via Fundo de Cultura, da Gráfica e Editora Vento Leste – que imprimiram os livros – e do grupo de Teatro NU – que apóia a logística.
Beijos, Jussi
Terça-feira, Maio 03, 2011
PROMOÇÃO 200 ANOS DE IMPRENSA - BAHIA

PROMOÇÃO - 200 anos de imprensa na Bahia!!! Os primeiros 200 amigos - isso mesmo, 200 - que solicitarem o livro 'Impressões Modernas - Teatro e Jornalismo na Bahia, de Jussilene Santana, pelo email junesantana@gmail.com OU abaixo receberão em casa um exemplar, ao custo de R$ 5, 00 (dos Correios). Envio para fora do país também. As despesas postais de um livro de 500 g (o caso) para os EUA custa, em média, R$ 17,50; Inglaterra e Continente Europeu: 19,75.
A imprensa baiana comemora e reflete sobre seus 200 anos no próximo dia 14 de maio. Essa é uma promoção conjunta com a Editora Vento Leste e o Governo do Estado da Bahia que publicaram os exemplares. Mais informações sobre o livro e a autora em http://arenateatral.blogspot.com/.
Sexta-feira, Novembro 26, 2010
Apresentação no VI Abrace
Segue o meu texto apresentado no VI Congresso da Abrace, em Sampa, de 09 a 12 de novembro de 2010.
O Jornal como Fonte de Pesquisa para o Teatro na Bahia entre 1956 e 1961: Análise
dos jornais A Tarde, Diário de Notícias e Jornal da Bahia.Jussilene Santana
Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas – UFBA
Doutoranda em Artes Cênicas. Orientador phD Ewald Hackler (diretor e cenógrafo)
Bolsista CNPq.
Atriz e Jornalista.
junesantana@gmail.com
A comunicação apresenta algumas conclusões das análises dos jornais baianos A Tarde,
Diário de Notícias e Jornal da Bahia realizadas para a pesquisa de doutorado 'Martim
Gonçalves - Uma Escola de Teatro contra a Província'. São considerados textos e fotos
sobre a produção cênica baiana entre 1956 e 1961. O período coincide com a fundação e
primeira administração da Escola de Teatro da Bahia, primeira no país ligada a uma
instituição de nível superior, a Universidade da Bahia. Em Salvador, a iniciativa abriu caminho para que procedimentos do teatro moderno fossem sistematicamente exercitados em inúmeros espetáculos. Durante cinco anos - num período conhecido como 'Era Martim Gonçalves', referência ao primeiro diretor da unidade - mudanças ocorrem tanto na cena teatral, quanto no jornalismo.
Palavras-chave: Teatro na Bahia, Universidade, Jornalismo, Moderno, Martim Gonçalves
Apesar da importância para a História do Teatro Brasileiro, até o momento não houve
nenhum estudo específico sobre a fundação e primeira administração da Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia (1956-1961), primeira no Brasil ligada a uma instituição de nível superior, estudo que por sua vez investigasse as opções artísticas e administrativas do diretor Martim Gonçalves e que, mais ainda, analisasse seu possível impacto na academia e no mercado das artes cênicas do país(1).
O encenador e cenógrafo pernambucano Martim Gonçalves chega a Salvador, em
1955, (2) a convite do reitor Edgar Santos. Com o objetivo de “sondar” as possibilidades de instalação de uma unidade de ensino, Martim ministra dois cursos de teatro, através dos quais se informa sobre a vida cultural e sobre a participação de potenciais alunos e professores.
Aos 36 anos, Martim possuía um respeitável currículo no teatro, cinema, artes
plásticas, ensino e crítica, mas não era um nome de projeção nacional. Apesar de ter
realizado trabalhos premiados – sobretudo em cenografia – com grupos e figuras emblemáticos do Rio de Janeiro, São Paulo e Recife,(3) além da co-direção do filme Ângela, na Vera Cruz, e de passagens pela Atlântida, Martim era (e de certa forma continuou sendo por toda a futura e exitosa carreira) um outsider.
Formado em Medicina com especialização em psiquiatria, Martim mudou-se do Recife
para o Rio em 1942, quando opta de vez pelas artes plásticas, atividade que exercia em paralelo na cidade natal. A partir daí adentra no mundo do teatro realizando cenários e cursos no exterior.4 De volta no início dos anos 1950, encontra um cenário teatral completamente modificado no país e estréia como diretor de teatro, em 1951, através do grupo O Tablado, que funda no Rio de Janeiro, com Maria Clara Machado, e cria o grupo Teatro do Largo (1953-1955), autodenominado “semi-profissional”, com o qual realiza representações ao ar livre, adros de igrejas e praças, numa tentativa de enfrentar a conhecida disputa pelos teatros da cidade exercitando uma prática largamente empregada no teatro moderno: utilizar espaços “alternativos” afinados com o tema e estilo das
encenações.
O convite para a Bahia, em 1955, surge num momento onde Martim almeja a
profissionalização da carreira de diretor, situação que, em linhas gerais, termina por afastálo de vez de O Tablado, projeto que Maria Clara insistia em manter no amadorismo, condição que a iniciativa carioca mantém até hoje, juntamente com a dimensão educacional.
A Escola de Teatro que Martim organiza em Salvador entre os anos de 1956 e 1961
se firma como um centro profissionalizante de excelência, único no país, articulado com outros centros de formação de artistas, acadêmicos ou não, localizados nos EUA, Europa e Oriente. Para tanto recebe completa autonomia do reitor, que à época coordena amplo programa para a universidade baiana, com a inclusão/incorporação de escolas de artes,(5) além da criação de inovadores institutos nas áreas da cultura e ciências básicas.(6) A Universidade seria a principal articuladora de um projeto amplo que intencionava re-inserir a ex-capital nacional no mapa cultural-econômico do país, projeto de certa forma subvencionado pelas benesses trazidas pela recém-descoberta de petróleo no estado (RISÉRIO, 1995).
No que diz respeito à inclusão do ensino das artes no âmbito universitário, tal
programa era arrojado na perspectiva mesma da sociedade brasileira, mas evidentemente
inspirado no modelo das universidades americanas que, ainda hoje oferecem, no nível da graduação, diversificada formação humanística, possuindo (se não todas as universidades e “colleges” pelos menos os mais importantes) departamentos de artes que também assumem a função de promotores de eventos culturais para a comunidade acadêmica. O reitor Edgar Santos, dilatando tal escopo, procura integrar “o restante da cidade” dentro desta comunidade atendida pelos produtos culturais das escolas, criando mesmo uma intrincada fusão entre unidade de produção, fruição e análise, que marcará “o mercado” artístico baiano nas próximas décadas.
A relação da administração Edgar Santos com as universidades e institutos
americanos ainda está para ser profundamente estudada. O que a pesquisa de doutorado
Martim Gonçalves – Uma Escola de Teatro contra a Província por hora aciona é a sua
articulação na Escola de Teatro, em especial sobre o convênio, posteriormente polêmico, com a Fundação Rockefeller, que possibilitará, quase que integralmente, a manutenção financeira na primeira administração.
Nestes cinco anos, as encenações/aulas da Escola possibilitam que procedimentos do
Teatro Moderno sejam trabalhados sistemática e ininterruptamente nas artes cênicas de
Salvador, alterando indubitavelmente os rumos da atividade no estado. Antes da Escola, o teatro na Bahia tinha cunho predominantemente amador e diletante. Pouco depois da sua formação, já se observa uma tendência à profissionalização, com o surgimento, em 1959, da Sociedade Teatro dos Novos, auto-denominada primeira companhia profissional de Salvador.
É através dos eventos e encenações da Escola que ocorre uma verdadeira mudança
de paradigma, não apenas no âmbito da atividade em seu aspecto profissional (ser
compreendida como uma carreira específica, mesmo que inóspita, a seguir; com salários a receber; e particulares relações ético-empregatícias – uma deontologia), como também há intensa divulgação/exercício das diretrizes do Teatro Moderno, em especial do poder relegado ao diretor e da importância da articulação de diferentes elementos para a formação“da cena”.
Num rápido balanço, a administração Martim Gonçalves: encenou quase três dezenas
de espetáculos,7 metade de textos inéditos no país; adquiriu o casarão-sede da Escola; inaugurou o Teatro Santo Antônio (atual Teatro Martim Gonçalves); criou a companhia A Barca; contratou inúmeros professores nacionais e estrangeiros;8 sem falar na profusão de eventos, cursos e seminários extra-curriculares voltados para a formação geral dos alunos.9
A abordagem seguinte analisa a cobertura teatral dos jornais Diário de Notícias, A
Tarde e Jornal da Bahia entre os anos de 1956 e 1961.10 Neste período, tanto o Diário de Notícias quanto o A Tarde passam por diversas transformações de ordem técnica e editorial.11 O Jornal da Bahia, que é lançado em 21 de setembro de 1958, concorre com otambém matutino Diário de Notícias, numa época em que o horário de circulação definia o perfil do veículo. Mas, aos poucos, graças à agilidade dos textos, agora escritos sob formato da “pirâmide invertida” (técnica jornalística de escrita que parte do mais essencial para o menos importante), ao lançamento de uma inovadora edição de segunda-feira,12 e pelo posicionamento político “mais” liberal13 em relação às forças político-econômicas que dominavam a cidade, o Jornal da Bahia concorre também com o A Tarde.
O que é primeiramente notável no comportamento dos impressos é a diferença de
engajamento em relação às inovações artísticas e culturais que se processam na cidade.Enquanto o Diário de Notícias está completamente integrado neste movimento, sendo inclusive co-formador do rico processo sócio-cultural-estético, o A Tarde, não raro, dá mostras de desconforto e inépcia no trato dos temas e atividades que mobilizam o fazer artístico. Já o Jornal da Bahia investe numa certa “neutralidade” de posicionamento. Quando inicia a circulação, em 1958, a Escola de Teatro já é uma realidade e não mais um projeto que deve ser combatido ou incentivado. De todo modo, o jovem periódico repercute com agilidade as atividades e eventos da Escola, oferecendo um precioso contraponto para as visões opinativas dos jornais mais tradicionais.
São anos em que também o jornalismo batalha pela delimitação profissional do seu
campo. Não havendo equipe fixa, os repórteres que se aproximam do tema por afinidade,
também não possuindo uma formação específica para a atividade. Por conta desta postura, o A Tarde praticamente continuará com os mesmos espaços e colunas já empregados na cobertura do teatro amador, incorporando aí a produção profissional da Escola de Teatro e dos novos grupos de alunos egressos. Não obstante a permanência nos mesmos ambientes, as questões sobre um “novo fazer teatral” não chegam a ser acionadas. Este jornal mantém, durante todo o período,colunas alimentadas por notinhas, artigos e pequenos comentários opinativos sobre teatro (14).
O Diário de Notícias explode em experimentações, promovendo a edição de novos
cadernos e suplementos. Vale destacar os cadernos Crônicas, o Suplemento Dominical e do caderno Letras e Artes, este mais tarde ainda abrigará a única coluna teatral do jornal, a DN-Teatro. A DN-Teatro intencionava publicar apenas críticas, mas, devido ao irregular número de estréias, imprime notas com agenda dos grupos e textos que discutem a própria função da crítica. Esta coluna também participa, quando da briga entre o diretor do jornal, Odorico Tavares, e Martim Gonçalves, da severa campanha da imprensa contra o trabalho do encenador. Já o Jornal da Bahia investe mais nas reportagens e entrevistas de cunho noticioso, evitando opinar diretamente através dos seus textos e, por isso, realizando um eficiente trabalho informativo, que serve de contraponto.
Esta comunicação destaca o fato de que os jornais não apenas discordam entre si no
julgamento de fatos, projetos e pessoas, como modificam “opiniões sobre eventos e artistas quando estes assumem posturas que se afastam das linhas editoriais defendidas ou mesmo por questões pessoais dificilmente diagnosticáveis” (SANTANA, 2009: 21). Conclusão que coloca em xeque o trabalho sobre História do Teatro que utilize “o discurso da imprensa”antes de qualificá-lo ou enquadrá-lo sob uma perspectiva crítica. É fundamental advertir sobre os riscos de apropriação de tal discurso para (re)criação de uma narrativa histórica,isto é, para a formação de “uma história do teatro’. Assimilando-os sem uma análise, grande parte dos estudos sobre o teatro no período – se não todos eles – mais perpetuam as mesmas questões, sonhos, limites, preconceitos e estratégias presentes no jornalismo (e na intelectualidade) daqueles anos, do que falam sobre teatro.
Segunda-feira, Novembro 01, 2010
O Teatro de Martim Gonçalves

Olá a todos,
No mês passado foi publicada uma entrevista sobre minha pesquisa no Bahia Flaneur.
Perguntas instigantes que me provocaram a continuar o trabalho.
Para quem arranha o francês, segue o link http://www.bahiaflaneur.net/blog2/2010/09/le-theatre-de-martin-goncalves-ce-passe-novateur-perdurera-t-il.html
Depois vejo com o jornalista responsável a possibilidade de publicar uma tradução.
Grande abraço,
Jussilene
junesantana@gmail.com
Quarta-feira, Agosto 05, 2009
A Miséria Cultural Baiana, André Setaro TERRA Magazine
A miséria cultural baiana
André Setaro
De Salvador (BA)
Diz-se que a Bahia já teve seu Século de Péricles, uma alusão ao período efervescente que se situou nos anos 50 e na primeira metade dos 60, quando Salvador congregava o que havia de mais criativo na expressão artística. Estimuladas pela ação da Universidade Federal da Bahia, comandada, e com mão de ferro, pelo Reitor Edgard Santos, as artes desabrocharam com o surgimento do Seminário de Música, da Escola de Teatro, do Museu de Arte Moderna, dos inesquecíveis concertos na Reitoria, da porta da Livraria Civilização Brasileira na rua Chile, dos papos ao por do sol frente à estátua do Poeta, no bar e restaurante Cacique, dos debates calorosos da Galeria Canizares (no Politeama), da "boite" Anjo Azul (na rua do Cabeça), entre tantos outros pontos que faziam da Bahia um recanto pleno de engenho e arte.
Na Escola de Teatro, por exemplo, que, inicialmente, foi dirigida por Martim Gonçalves, montava-se, lá, de Bertolt Brecht, passando por Ibsen, Eugene O'Neill, entre tantos, a Strindberg, com um rigor inusitado, e tal era a excelência de seus espetáculos que vinham pessoas do sul do País, e até do exterior, vê-los encenados "in loco". No curso de preparação de ator, o estudante levava alguns anos para poder participar de uma montagem teatral, iniciando a sua trajetória como um mordomo mudo ou de poucas falas. Somente ter o seu nome no programa da peça já era um prêmio, uma alegria, um consolo.
O recente livro, "Impressões Modernas - Teatro e Jornalismo na Bahia", de Jussilene Santana, analisa a configuração do teatro como temática na imprensa baiana em meados do século XX e, pela primeira vez, faz justiça a Martim Gonçalves, o responsável pela excelência das montagens teatrais, criador da Escola de Teatro (que hoje tem o seu nome), mas muito criticado na sua época e até mesmo denegrido pelos opositores. Após a leitura deste livro imprescindível, a conclusão é única e inequívoca: sem Martim Gonçalves não se teria um teatro baiano do nível a que chegou, ainda que, décadas depois, tenha perdido todo o seu vigor, transformando-se num grande proscênio destinado à proclamação de "besteiróis", honradas as exceções de praxe.
Cinqüenta anos depois, meio século passado, a realidade cultural baiana é uma antípoda da efervescência verificada, uma época que foi chamada, inclusive, de "avant garde" pela sua disposição de inovar, pela marca de vanguarda da mentalidade de seus artistas e intelectuais. Atualmente, a Bahia regrediu muito culturalmente a um estado, poder-se-ia dizer, pré-histórico, e o "homo sapiens" do pretérito se transformou no "pithecantropus erectus" do presente. Aquele estudante do parágrafo anterior, por exemplo, não existe mais.
Na Bahia miserável da contemporaneidade, qualquer um pode pular em cima de um palco, qualquer um se sente apto a dirigir uma peça, "mexer" com cinema, fazer filmes. Com as sempre presentes exceções de praxe, o teatro que se pratica na Bahia é um teatro besteirol, que faria corar aqueles que participaram da antiga escola de Martim Gonçalves.
A Bahia não está apenas mergulhada em bolsões de pobreza, na violência diuturna e desenfreada, com seu povo excluído de tudo - e até mesmo dos cinemas, mas do ponto de vista cultural a miséria é a mesma. Miséria cultural, descalabro, ausência do ato criador, apatia, desinteresse. Eventos existem para a satisfação de pseudo-intelectuais que não possuem as bases referenciais necessárias para a compreensão do que estão a ver ou a ouvir. O momento presente, se comparado aos meados do século passado, assinala uma regressão cultural sem precedentes. Como disse Millor Fernandes, a cultura é regra, mas a arte, exceção, o que se aplica sobremaneira sobre o estado atual da cultura baiana. Cultura se tem em todo lugar, mas arte é difícil, e a arte baiana praticamente não existe.
Com o desaparecimento dos suplementos culturais e o advento de normas editoriais que privilegiam o texto curto, além da incultura reinante pela assunção do império audiovisual em detrimento da cultura literária (vamos ser sinceros: ninguém hoje lê mais nada), a crítica cultural veio a morrer por falência múltipla das possibilidades de exercício da inteligência numa imprensa cada vez mais burra e superficial.
Sérgio Augusto, crítico a respeitar, que militou nos principais jornais cariocas, em entrevista ao "Digestivo Cultural", site da internet (vale a pena lê-la na íntegra: http://www.digestivocultural.com/entrevistas/entrevista.asp?codigo=10), do alto de sua autoridade no assunto, afirmou que o jornalismo cultural está morto e enterrado, ressaltando que se fosse um jovem iniciante não entraria mais no jornalismo porque não vê, nele, perspectivas para a crítica de cultura (área de sua especialidade).
Dava gosto se ler o Quarto Caderno do Correio da Manhã com aqueles artigos copiosos, imensos, que abordando cultura e artes em geral, eram assinados por Paulo Francis, Otto Maria Carpeaux, Álvaro Lins, José Lino Grunewald, Antonio Moniz Viana, entre tantos outros. A rigor, todo bom jornal que se prezasse tinha seu suplemento cultural. Aqui mesmo em Salvador, vale lembrar o do Diário de Notícias e o do Jornal da Bahia (em folhas azuis). Atualmente, resiste o Suplemento Cultural de A Tarde (mas, mesmo assim...).
A inexistência da crítica de arte não diz respeito apenas ao soteropolitano. É uma constatação geral no jornalismo brasileiro. Mas, e os cadernos culturais e as ilustradas da vida? Caracterizam-se pela superficialidade e servem, apenas, como guia de consumo, com suas resenhas ralas. Atualmente, os cadernos dois, assim chamados, são até contraproducentes porque elogiam o que deveriam criticar, colocando na posição de artistas personalidades que deveriam, no máximo, estar no departamento de limpeza de estações rodoviárias.
A crítica de arte serve justamente para isso: para, construtivamente, sem insultos, mas com argumentos sólidos, desmontar aquilo que não presta. Que falta não faz uma crítica de teatro séria, que, semanalmente, venha a apreciar o que se está a apresentar na cidade como literatura dramática! Ou uma crítica de artes plásticas. A interferência de um crítico faria corar muitos pintores que estão expondo na Bahia e posando como artistas. Assim também uma crítica de cinema que fosse menos paternalista com os "coitados' dos cineastas baianos cujas imagens são a de "franciscanos" em busca da expressão cinematográfica, mas cujos resultados, em sua grande maioria, remetem o espectador aos braços de Morpheu, quando não à aporrinhação.
Se a miséria da cultura baiana é cristalina, a miséria da crítica cultural é, também, imensa. Que esmola pode ser dada para se acabar com ela?
André Setaro é crítico de cinema e professor de comunicação da Universidade Federal da Bahia (Ufba).
Entrevista no Michele Marie, seção Bahia BY

Um destaque cultural da Bahia!
Não é de hoje que a atriz e jornalista Jussilene Santana vem se destacando no cenário cultural da Bahia. Em 2004 ela foi indicada ao Prêmio Braskem como melhor atriz coadjuvante, em seguida, em 2005 ela foi contemplada com o Prêmio Braskem como melhor atriz pelo seu desempenho no espetáculo Budro. Além de atuar nos palcos ela é Professora e Mestre em Artes Cênicas e atualmente está fazendo doutorado na UFBA. Com o jornalismo ela também ganhou prêmios pela sua competência e teve a oportunidade de trabalhar em jornais de grande circulação, foi repórter de Tv e escreveu um livro recentemente, o qual é intitulado “Impressões Modernas – Teatro e Jornalismo na Bahia”. Para compreender as facetas da artista/jornalista o Michelle Marie fez uma entrevista pra lá de interessante. Confiram!
Entrevista com Jussilene Santana
Fotos Thiago Teixeira
Michelle Marie -Em primeiro gostariam de saber como é possível administrar tantas atividades com tanto profissionalismo e perfeição?
Jussilene Santana - Bom, perfeição é por sua conta...E nem sei se perfeição deve ser um objetivo. Mas, sim, sempre quis ser profissional da arte e da cultura aqui na Bahia, no que a definição tem de melhor: alguém que abraça uma profissão e maneja suas técnicas com maestria. Quando iniciei no teatro e no jornalismo, há 14 anos, tinha muitos mestres como modelo: a atriz Yumara Rodrigues, os diretores Martim Gonçalves e Ewald Hackler, os jornalistas Alberto Dines e Andre Setaro, enfim, só para ficar em nomes mais próximos a nós. Com o tempo, e com a ajuda integral da família, descobri como uma atividade poderia fortalecer as demais e o cotidiano foi ficando mais simples. Daí, é só manter o foco. E trabalhar muito.
M.M - O que significa ser referência para o teatro baiano, o jornalismo e academia?
J.S - Mas eu não sei se sou referência em coisa alguma... As outras pessoas é que podem responder isto! Por outro lado, sempre pautei minhas escolhas profissionais com muita responsabilidade, pensando na qualidade do que levava para meu público, meus leitores e alunos. Aprendi muito cedo a dizer não. Como expectadora e leitora, o que mais me interessa são as produções feitas com sensibilidade e inteligência. Só tento devolver o que recebo.
M.M -Como era a sua relação com o teatro durante a infância e adolescência?
J.S - Nesta fase, praticamente nenhuma. Claro que fiz peças de teatro na escola, na rua e na igreja, mas nenhuma delas tinha compromisso com a excelência, sendo mais um gostoso hobby. Só fui conhecer o teatro profissional quando conheci as produções da Escola de Teatro da Ufba, nos anos 1990. E aos poucos fui assistindo outras peças do circuito e acompanhando a cena e seus artistas.
M.M -Você acha que o jornalismo precisa investir mais em cultura na Bahia?
J.S - O jornalismo precisa de muito investimento. De profissionais capacitados, de aumento do número de reportagens e análises, de mais concorrência! Claro, não só na cobertura cultural...Mas, sabemos, o jornalismo impresso atravessa uma crise. Os jornais existentes estão fechando ou passando por grandes reformulações, frente à multiplicidade de sites e blogs informativos, que, na maioria das vezes, trabalham com mão-de-obra não remunerada.
M.M -O que você espera do seu novo espetáculo na pele de Joana d'Arc?
J.S - Ultimamente venho me interessando muito pelo tema "quem somos nós". Sobre como é possível entrar num grupo e batalhar por ele, não apenas agindo em nome próprio, mas de uma coletividade...Isto está cada vez mais complicado, não é verdade? Temos inúmeras reivindicações a fazer aos governos, às instituições, mas quando nos unimos uns aos outros para prosseguir numa "luta" por melhorias, tudo desanda... Espero colocar estas inquietações no espetáculo, afinal, Joana d'arc, é uma metáfora desta luta.
M.M -Por favor descreva um pouco de você relacionada a cada item a baixo:
Família... Minha família compreende que minha vida é trabalho e me apóia em tudo que faço.
Atriz...A grande forma de comunicação.
Jornalista...Um prazer absoluto em provocar novas cabeças.
Professora...Um momento de troca e de aprendizado de mão-dupla.
Doutoranda...A necessidade de lançar foco sobre a obra de um grande nome do Teatro na Bahia: Martim Gonçalves
Escritora...Uma outra maneira de divulgar minhas descobertas
Segunda-feira, Maio 25, 2009
Luz no Teatro de Martim Gonçalves, A Tarde, 25 de maio de 2009

A TARDE – Caderno Cultural 23/05/2009, sábado
LIVRO RETRATA MARTIM GONÇALVES
Dois especialistas analisam obra resultante de pesquisa sobre mídia impressa e a Escola de Teatro da Ufba
Martim Gonçalves, figura-chave no processo de construção da identidade do teatro baiano, é o principal personagem do livro Impressões modernas – Teatro e jornalismo na Bahia (Ed. Vento Leste) da atriz e jornalista Jussilene Santana. Doutoranda em artes cênicas pela Ufba, instituição onde ensina, a autora se dedicou ao tema em sua pesquisa de mestrado, na qual analisa a configuração do teatro na imprensa baiana, em meados do século XX, nos jornais A TARDE e Diário de Notícias.
Entendendo que “os jornais são personagens ativos na construção da história”, Jussilene resgatou e digitalizou 2.500 fotos e matérias jornalísticas sobre teatro publicadas entre 1956 e 1961, levantando de forma inédita a crítica teatral em torno do trabalho do primeiro diretor da Escola de Teatro da Ufba. Sua dedicação fez com que a pesquisadora conquistasse o respeito da família Gonçalves, que a ela doou todo o acervo do encenador. Sua pesquisa ilumina o teatro de Martim Gonçalves, apresentando um profissional nada elitista, mas, ao contrário, “ligado à cultura popular”, e humaniza sua imagem. Estes, na opinião do diretor Ewald Hackler e do ator Gideon Rosa, que resenham o livro, são os maiores mérito da autora. Confira nas páginas que se seguem.
Impressões Modernas, resenhado por Ewald Hackler
EWALD HACKLER
O livro Impressões modernas – Teatro e jornalismo na Bahia, da atriz e jornalista Jussilene Santana, lançado este ano, levanta pela primeira vez e analisa sistematicamente vasto material da crítica teatral em torno do trabalho de Martim Gonçalves na Bahia entre 1956 e 1961.
Jussilene se concentra nas coberturas do Diário de Notícias e do jornal A TARDE. O primeiro sustenta, pelo menos durante um bom tempo, o movimento cultural que Gonçalves desenvolve em volta da Escola de Teatro da então Universidade da Bahia. Enquanto o segundo transmite desde o início, em suas críticas, ambiguidade e até aberto antagonismo contra os novos rumos da cultura na Bahia.
Em 1998, escrevi uma resenha de A mochila do mascate, de Gianni Ratto, cenógrafo e diretor da Itália que trabalhou, a convite de Gonçalves, como cenógrafo, diretor e docente.
O livro contém um trecho em que Ratto avalia em termos conflitantes a convivência com Gonçalves: “... homem de cultura requintadíssima, sensibilidade aguda e total descompasso em suas relações humanas (...). Autoritário, estupidamente autoritário (...). Não admitia opiniões contrárias às dele (...) mas, com todos esses defeitos, tinha tido o mérito de organizar uma escola de primeira categoria. Alguns anos depois morreu, parece, de um tumor no cérebro, e isto explica tudo e me faz sentir constrangido por ter falado mal dele e, uma vez, depois de estúpida discussão, ter ameaçado surrálo (sic). Como toda personalidade ditatorial, era bi-fronte (sic), admirável e difícil de aturar.” Em 1994, Aninha Franco compilou, no seu O teatro na Bahia através da Imprensa , um, ao que parecia naquela época, vasto material que deu idéia do sistemático movimento que a Bahia promoveu contra Gonçalves e sua Escola.
Agora, o livro de Jussilene mostra a orquestração dessa campanha e analisa as sensíveis diferenças entre os impressos.
O que na verdade surge de maneira indireta, mas por isso não menos precisa, é a anatomia das mentalidades de uma província. Jussilene faz isso com uma quantidade surpreendente de material, revela uma desconhecida extensão de matérias sobre Gonçalves (que só reflete o interesse que o trabalho dele despertara em ambos os jornais), o que faz o recorte de textos selecionados por O teatro na Bahia através da Imprensa parecer muito manipulador.
A administração de Gonçalves coincide com um momento em que o Brasil atravessa intensa onda de nacionalismo, enquanto os EUA tentam, com uma política agressiva nos segmentos cultural e educativo, evitar que o setor estudantil se renda à sedução do ideário marxista.
Talvez se Cuba fosse situada em Sergipe, poder-se-ia duvidar que o entusiasmo pela vitória de Fidel e de sua posterior ditadura fosse tão geral na inteligência brasileira.
Gonçalves cometeu o pecado capital da época: conseguiu dinheiro para financiar seus projetos. Dinheiro da então dita imperialista Fundação Rockefeller. No fundo, apenas uma maneira encontrada para justificar a rejeição à excelência de seu trabalho. Nunca mais, depois de Gonçalves, uma estrela maior tomou posse da diretoria da Escola de Teatro com essa utopia messiânica.
É verdade que ele chegou ao teatro com algum atraso: formou-se em medicina com especialização em psiquiatria, estudou pintura em Pernambuco e Rio de Janeiro, onde experimentou arte-educação na Sociedade Pestalozzi com bonecos mamulengos nordestinos; estudou artes plásticas e cenografia em Londres e conheceu o rigor e a eficiência do teatro profissional inglês; trabalhou nos Estúdios da Vera Cruz, foi cenógrafo para Ziembinski e cofundador do Teatro Tablado.
Em 1956, quando assume a direção da Escola, com 36 anos, possuía sólido currículo profissional, muito acima do padrão comum. Mas é exatamente esta aparente falta de sequência na carreira, tão típica no currículo de gente de qualidade que trabalha com teatro, que seus críticos vão usar para desqualificálo como diletante e sem rumo.
São vários os enfoques que os chefões dos pequenos poderes da província usam para chamar Gonçalves às contas (com a régua do pedagogo à mão): chamam-no de colonizador porque não assume nos trabalhos uma posição de “baianidade”; é o adepto de estrangeirismos porque dirige textos da dramaturgia universal; é elitista porque monta textos de qualidade independente da origem do autor. Todas as bravatas inqualificáveis típicas dos tribunos provincianos.
São muitos, ainda, os “profissionais” da imprensa analisados por Jussilene. Tem o caso exótico de um jornalista, um verdadeiro “homem de borracha”, um contorcionista, que escreve quase que simultaneamente em diferentes jornais, emitindo em cada um deles avaliação sobre Gonçalves seguindo estritamente as linhas editoriais do impresso que o publica. Um verdadeiro mestre de flexibilidade e ética jornalísticas.
Bom, e diante do que faz Paulo Francis, que emite do Rio de Janeiro críticas sobre as peças dirigidas por Gonçalves sem assisti-las (obviamente baseado num ghost writer na Bahia que, por sua vez, republicava os textos de Francis na imprensa), até que as resenhas negativas utilizando pseudônimos representavam práticas inocentes...
O maior mérito do livro de Jussilene é que demonstra, não apenas analisando o currículo de Gonçalves, mas também seus empreendimentos culturais nos poucos anos de Bahia, ter ele feito em favor da arte popular do Nordeste, do teatro de cordel, da dramaturgia nacional, da divulgação das danças e teatros populares do Brasil (no País e no exterior), mais do que todos seus críticos juntos eventualmente fizeram pelo Estado e pela divulgação de sua cultura.
Seus críticos exerceram em lastimável penúria ideológica a função de leão de chácara dessa boa terra. Escolheram como quartelgeneral para maquinar os ataques o barzinho da esquina. E até hoje cultivam, como idéia dominante, que a situação colonial (ou semicolonial) produziria a alienação da cultura brasileira. Até hoje também – isso o livro de Jussilene transmite – se argumenta sob a mira de polarização costumeira, colocando a dramaturgia universal como servindo a um teatro alienado.
Enquanto embusteiros ambulantes festejam a produção nacional de peças predominantemente medíocres como “engajadas”, não se dão conta que o teatro brasileiro perde técnicas e contribuições importantes de textos da dramaturgia universal que tratam justamente de aspectos vitais também da vida no Brasil.
Quanto à hoje, pode se dizer que o teatro é contaminado num nível ideológico pela concepção que o governo tem de cultura. Porque o governo faz o que não é o direito do governo: cobra para si o privilégio de dizer o que é cultura. É a banalização da didática barata: acarajé também é cultura. Feijoada é cultura.
TUDO é cultura!... Se tudo é cultura, logo, nada é cultura...! Esta concepção do vatapá cultural, a ditadura suflê da arte popular, já se anunciava na campanha contra Gonçalves há 50 anos. É a mesma triste obsessão populista que paralisa há muito tempo o raciocínio.
Desligando a cultura do conceito de seleção e de qualidade, a sátira se revela como verdade, a vulgaridade e a burrice são celebradas como qualidades máximas. E o obscurantismo como arte da política. Assistimos ao nivelamento por baixo.
Por que os intelectuais desta boa terra não se manifestaram ontem e não se manifestam hoje? Eles não têm colhões nas calças que vestem? A forma pedante com que se discute ainda o conceito de “baianidade” remete ao pesadelo de uma churrascaria em que o homem mais bem pago é aquele que vira as salsichinhas na brasa. A natureza patológicoautista da contemplação do próprio umbigo tem paralisado por décadas boa parte da imaginação e criatividade acadêmica local.
Pois também fazem parte da memória nacional a literatura de Machado de Assis e de Lima Barreto que, é bom lembrar, eram negros, e conseguiram superar o terrível estigma de cor com a validade de suas letras. Que LIÇÃO para nós! Eles não se comportaram como duas velhinhas insistindo pela poltrona “only for white” num ônibus. Eram, sim, dois escritores brasileiros, negros, que tomaram os primeiros lugares do cânone literário mundial por suas obras.
Mas o recado do atual “jornalismo cultural” parece ser: “O País não tem mais um Machado, um Lima...
Mas e daí, se temos Paulo Coelho?!” Como se pode ver, Caio Plínio Segundo, o cientista romano, tinha razão dizendo que “nenhum livro é tão ruim que não possa ser útil sob algum aspecto”.
Quando Gonçalves deixa a Bahia em 1961, como homem achincalhado na desgraça pelos jornais baianos, ele não perde tempo decifrando o enigma da sua queda. Usa os anos que lhe restam para fazer teatro. Intensamente. Parece que a Bahia nunca havia existido.
Mas a Escola de Teatro, com sua alta reputação acadêmica e artística, sobrou quase que como um paradoxo de tudo isso. Porque ainda incorpora seus princípios no ensino da prática teatral. E ficou também seu teatro, reconstruído, desde 1996, como Teatro Martim Gonçalves.
Ele está de volta, sim.
Não posso fechar o livro Impressões modernas sem reclamação.
Diante das qualidades do trabalho, quase me sinto um crítico mesquinho: mas o arranjo gráfico da capa é confuso, porque o título se confunde com a reprodução de um artigo de jornal com as falhas de clichê com retícula.
Além disso, o título é em si de pouca precisão. A abrangência da pesquisa e a habilidade da análise de Jussilene Santana em manusear a quantidade imensa de material, colocando-o além das linhas de fuga das perspectivas conservadoras, não mereceriam um termo tão nebuloso quanto “impressões”. E o que seriam impressões modernas escapa por completo à minha compreensão. No subtítulo, não faria mal especificar o período que o livro contempla. Aqui, um último recado para o leitor: não julgue pela capa. Confie no livro!
EWALD HACKLER | Diretor teatral e cenógrafo
Uma Análise sem Rancores, Gideon Rosa
Uma análise sem rancores
GIDEON ROSA
gideonrosa@uol.com.br
“O tempora, o mores!” (ó tempos, ó costumes!), exclamou Cícero em sua primeira catilinária no senado romano contra Lucio Catilina. Ler o livro Impre ssões modernas – Teatro e jornalismo na Bahia, de Jussilene Santana (Ed. Vento Leste) faz lembrar essa célebre frase que ilustra bem esse aspecto da baianidade que, alardeia-se, dá 100 para que o outro não ganhe 50.
Recebi meu exemplar com a seguinte dedicatória: “Um livro que todo jornalista e ator deve ler”. Enquadrado nas duas categorias, não me furtei ao desafio de mergulhar um pouco na história da Bahia, particularmente na história do teatro da Bahia: antes e depois de Martim Gonçalves, e toda a relação que este pioneiro desenvolveu com a imprensa, a comunidade artística e a intelligentsia da época (1956-1961, período de enfoque do livro).
O trabalho é uma grata surpresa porque preenche lacunas históricas e tece considerações com base em depoimentos que iluminam trechos pouco esclarecidos da passagem de Martim Gonçalves pela Bahia. A trajetória deMartim no reino de Senhor do Bonfim modificou definitivamente o teatro realizado em Salvador e essa personagem merece um livro como Impressões modernas, que recompõe sua figura, deixando-a à altura da empreitada que realizou.
Acusado de ser um divulgador do teatro estrangeiro no Brasil, isto é, de só encenar peças de autores europeus e norte-americanos, esta é a primeira má impressão derrubada por Jussilene Santana.
Ela prova, por fatos e depoimentos, o quanto de brasilidade estava nas ações de Martim Gonçalves.
Ele foi um entusiasta, pernambucano que era, em também promover o teatro com base na literatura de cordel, além de construir um acervo com peças da cultura nordestina que foi do Brasil para a França e para a Bienal de São Paulo, onde se dispersou.
Fica claro, para quem lê o livro, que Martim Gonçalves se interessava pelo bom teatro, um teatro profissional, sem se prender a escolas estéticas.
Há aspectos curiosos na trajetória deMartim Gonçalves na Bahia que suscitam algumas especulações reveladoras de uma Bahia moralista e acostumada à troca de favores. Inicialmente, Gonçalves foi recebido com aplausos e fogos de artifício pela classe dominante, mas não houve convergência pacífica com parte da intelectualidade da época.
Passados os primeiros anos, artigos favoráveis à instalação da Escola de Teatro da Ufba (um projeto do reitor Edgard Santos) e à pessoa de Martim foram rareando até restar somente o Diário de Notícias. Mas o rompimento com Odorico Tavares, então diretor dos Diários Associados (diz-se que em razão da recusa do diretor pernambucano em permitir a transmissão de A Ópera dos Três Tostões gratuitamente pela TV Itapoan), pôs fim à ultima fronteira de defesa de Gonçalves.
A perseguição feroz a Martim Gonçalves vinha até de um jornalista como Paulo Francis – jamais veio à Bahia ver a Escola de Teatro –, que usava expressões como “comportamento primadonístico” e “desligamento cultural em relação ao Brasil”, dentre outras acusações sistematicamente reproduzidas por jornais locais.
Havia também o jornal Unidade, pertencente a grupos estudantis de esquerda, que o denominavam como o “Calígula aposentado” e esse mesmo jornal chamava a Etufba de “reino de Eros”. E, depois, o próprio Odorico Tavares escreve em sua coluna “Rosa dos Ventos” (Diário de Notícias), afirmações sobre a inutilidade da Escola de Teatro para a Ufba, porque toda a sua estrutura estava voltada para que brilhasse “uma figurazinha, que se recolhe o mais possível, pois, revelada a sua face, as coisas seriam piores”.
Os artigos pareciam, em determinado momento, se ocupar de usar expressões para construir nas entrelinhas um discurso da mais aberta rejeição a Martim Gonçalves, não por suas posições profissionais, mas por seu comportamento homossexual que, apesar de discreto, parecia ser intolerável para a classe dominante e os formadores de opinião da época. O ponto de discórdia parece residir no fato de que um praticante do “vício grego”, ainda mais pernambucano, não poderia chegar à Bahia para ocupar tanto espaço e ditar normas de como deveria ser um teatro profissional.
A estratégia dos detratores era de negar suas habilidades para não legitimar sua figura perante a sociedade, porque isso representaria perigo para o conservadorismo baiano que, de algum modo, ainda hoje permanece. Às vezes, Odorico Tavares escrevia, em tom de quase aviso: “O gênio arma suas arapucas custosas, onde felizmente são raros os que caem nelas. Mas é preciso que ninguém mais caia nelas”.
Em A TARDE, na coluna “7 Dias” assinada por Adroaldo Ribeiro Costa em 1960, ele também sistematizava os ataques e a queixa recorrente era de que só tinham vez, nas montagens do grupo A Barca (criado por Martim para produzir as peças da Etufba), “os filhos diletos do coração do Senhor”.
O Unidade chegava a utilizar expressões como “deu a louca” para se referir aos entreveros de Martim com alunos e professores.
Aparentemente, o preconceito e a ignorância expulsaram da Bahia um homem que promoveu uma revolução no fazer teatral da cidade ao construir espetáculos importando artistas, técnicos e textos para forçar a que se chegasse um degrau acima numa prática amadora que se caracterizava por numerosos grêmios e sociedades culturais.
Como contraponto, a autora de Impressões modernas tem o cuidado de estabelecer um diálogo profundo também com os defensores de Martim Gonçalves, tanto em depoimentos como em material publicado nos jornais. A exemplo de Glauber Rocha, que escreveu: “A iniciativa de Edgard Santos encontrou em Martim Gonçalves elemento ideal para planejar e desenvolver o curso que, embora ainda incompreendido por muitas classes baianas e pela maioria dos ativos profissionais de teatro brasileiro, cria, gradativamente, bases reais para um futuro corpo de artistas capacitados ao progresso da cena brasileira no melhor sentido de concorrência aos espetáculos de todo o mundo...” (Diário de Notícias, 1960).
É interessante observar que a vinda de Eros Martim Gonçalves para a Bahia fez eclodir um conflito que só existe no pensamento de uma determinada esquerda panfletária: a alta cultura versus a cultura popular. E parece que esse pensamento perdura. Jornalistas e intelectuais se debruçaram a fazer acusações de que o trabalho de Martim só servia a um grupinho de interessados na alta cultura e que ele desprezava os valores nacionais.
Montagens de autores brasileiros listados por Jussilene provam que essas afirmações foram todas feitas de má-fé, que havia algo mais por detrás dessa campanha que se orquestrou contra o diretor pernambucano.
Ao se ler Impressões modernas, percebe-se claramente que a Bahia, contemporaneamente, não se livrou desse ranço xenófobo.
Um pensamento que, antes e agora, impõe prejuízo à prática do teatro. Para o fazer teatral, o cerne da questão é se o espetáculo é de boa ou má qualidade, porque o público – o que verdadeiramente importa – passa ao largo dessas discussões estético-ideológicas e aplaude sempre o resultado que lhe apraz.
A raiz desse pensamento (“um teatro ao alcance de todos”) reside na histórica crença intelectual de que o público é ignorante. Essa aposta leva os intelectuais, principalmente os de esquerda e os estudantes, a criarem movimentos salvadores. É nesse contexto que surgiu o Centro Popular de Cultura (CPC) com o claro objetivo de doutrinar as platéias.
A autora se preocupa em registrar o pensamento matricial e retrógrado da Bahia – sempre avessa a mudanças – quando extrapola sua pesquisa e registra a oposição ferrenha que uma parte da imprensa fazia à construção do Teatro Castro Alves sob o argumento de que havia outras prioridades. Ela deixa claro, ainda, que a famosa disputa com professores e alguns alunos, que provocou a ruptura geradora do Teatro dos Novos (Vila Velha), é um episódio que pode ser considerado positivo para o balanço da contribuição de Martim Gonçalves ao teatro baiano.
O livro recupera a imagem de Martim Gonçalves, humaniza-o, retrata um homem preocupado com o teatro profissional e imbuído na tarefa de elevar o nível de produção do teatro realizado na Bahia e, por isso, muitas vezes, incompreendido. É um documento que não se afasta de sua perspectiva histórica e cumpre o papel de todo historiador preocupado com a verdade: traz o contraditório através de várias fontes (depoimentos e pesquisa nos jornais), tece comentários, mas deixa ao leitor o espaço que lhe compete para fazer seu próprio juízo. Ler este livro é saudável para se compreender o pensamento baiano.
GIDEON ROSA | Ator e jornalista
Domingo, Março 22, 2009
Jussilene Santana fala de Joana D'Arc e Muito mais

Jussilene Santana fala de Joana D´Arc e muito mais
A Tarde, 22 de março de 2009 - Domingo
Revista MUITO - Jornal A Tarde, Salvador - BA
http://www.atarde.com.br/muito/bio/index.jsf?post=1101345
Katherine Funke
Márcio Lima | Divulgação
[ Atriz em cena de Shopping & Fucking, papel anterior ao de Joana D´Arc ]
Este ano, ninguém discorda, é dela. Jussilene Santana vai ser mãe. De uma menina. E de uma grande personagem. Quando fizemos a entrevista, no dia seguinte ao lançamento do seu livro Impressões Modernas - Teatro e Jornalismo na Bahia, ela estava com a corda toda. Não para menos. Além de se preparar para encenar Joana D' Arc no teatro, a atriz e jornalista vai estrear em breve no cinema - e logo em três longas-metragens baianos. Quem não a viu em ação nos palcos ainda tem chance de conhecê-la. No segundo semestre, o espetáculo sobre a soldada francesa Joana D´Arc será encenado em teatros baianos. Faz poucos meses, Jussilene mora no Rio de Janeiro. Tudo indica que, se os ventos continuarem tão bons, essa baiana em breve será conhecida de um público mais vasto. Leia a seguir alguns dos principais trechos da entrevista, concedida entre sucos e sanduíches, no Rio Vermelho:
TRAJETÓRIA
"Eu sou uma atriz com vários começos: fiz teatro na Igreja de São Caetano, na Escola Técnica, nas oficinas da Fundação Cultural... Mas o clic só se deu com a minha entrada na Escola de Teatro, pelo XII Curso Livre, em 1995, porque nela conheci um grande número de atores e diretores que faziam do teatro uma profissão e não um hobby. Ser atriz é, sobretudo, ter 2.500 anos de idade. Com uma memória transmitida pelas centenas de textos gregos, suecos, russos e americanos, por autores de diferentes latitudes e épocas. Ser atriz é ser herdeira de uma tradição e ter uma dívida imensa com os mortos."
PRÊMIOS
"O Braskem não é o Oscar, um prêmio que funciona como uma vitrine dos melhores do mercado. Não é um trampolim para que carreiras deslanchem a partir dos novos convites que surgirem desta projeção. Uma vitrine assim só funciona em estruturas organizadas, o que não é o caso de Salvador. Nesta cidade o Braskem e a área teatral estão cada vez mais marginalizados da vida social. Antes o Braskem ainda tinha certo peso porque tentava avaliar a poética dos produtos apresentados. Mas o perfil do prêmio mudou consideravelmente nos últimos anos. Hoje ele é mais um prêmio que contempla as ações extra-palco do indivíduo, como o esforço que ele teve para chegar até ali, seu tempo de carreira, a dedicação como artista ou se ele é alvo de alguma exclusão social e que, por isto, deve ser "recompensado". Sinal dos tempos. Se o Braskem fosse avaliar só as questões técnicas e poéticas do fazer teatral teria que encarar a dura realidade de deixar várias categorias sem indicados."
MESTRES
"Tenho mestres, graças a Deus. O diretor e cenógrafo Ewald Hackler é um deles. Porque ele é extremamente sensível e generoso com o ator, jamais o abandonando às feras. E é extremamente exigente. Cansamos de trabalhar noites seguidas em uma única fala, um único gesto, exatamente para transformá-lo em único, inesquecível para quem assiste. Ele também tem um senso de humor aguçadíssimo e é simplesmente a pessoa que assistiu/ouviu mais peças, filmes e músicas que eu conheço, transformando todo o trabalho de ensaios num encontro prazeroso. Outro mestre é Martim Gonçalves, o tema do meu doutorado, por ter implantado nesta cidade a noção de profissão em teatro, mas, sobretudo por ter sido um homem de teatro que defendeu a arte teatral contra todas as adversidades que encontrou. A atriz Yumara Rodrigues porque, acreditem, ela é a melhor. Mas meus mestres também vêm de outras áreas: o cineasta alemão Ernest Lubitsch, pela malícia e ironia de seus filmes; o escritor americano Kurt Vonnegut, pela incrível mistura de desespero, piedade e esperança com os seres humanos. E a cantora americana Ella Fitzgerald, pelo domínio com a técnica vocal e pela articulação impecável."
NA CONTRAMÃO
"Demorei muito tempo para sair do século XIX, século do teatro e da escrita. A base da minha formação e da minha sensibilidade é formada por eles. Quando comecei a cair no século XX, do cinema, do rádio e da TV, praticamente pulei para o XXI, dos blogs, podcasts e softwares sociais. Isto tudo a despeito de reconhecer que é a mídia massiva ainda é a que mais legitima artistas para o público. O teatro tem sido, há muito tempo, uma atividade de resistência, para quem faz e quem assiste. O teatro é uma atividade artesanal, de alcance pequeno se compararmos com a audiência da TV, com o público do cinema... Por isto estará sempre na contramão da indústria cultural e vai ser sempre ser exercido por aqueles artistas que acham que existem experiências que só o teatro pode proporcionar, como a urgência, a força e a fragilidade da presença humana."
MUDANÇA PARA O RIO
"Para mim, o Rio de Janeiro é um prato cheio porque tenho muitos contatos lá. Mas sou muito baiana e meus interesses ainda estão ligados aqui. Tive muita resistência para fazer uma ponte aérea como essa, porque acho que Salvador precisa de tanta coisa... Mas minha consciência está super tranquila, porque todas as dimensões que trabalho, que são as da cultura e da comunicação, estão muito voltadas para a Bahia"
TALENTO
"Os talentos não florescem como flores, margaridas selvagens. Eles precisam de estrutura para evoluir e criar outras relações. O que eu vejo é que nos últimos 50 anos existiram dois momentos onde essa estrutura de fato aconteceu: dos anos 1950 para os 1960 e nos anos 1990. O resto era o teatro à própria sorte, marginalizado, sem conseguir dialogar com a sociedade. Tenho muitos colegas talentosos e atores novos surgindo, mas o talento sozinho não é nada. Se o talento não é trabalhado, a pessoa se decepciona, se enfraquece. Não é todo mundo que tem energia para viver às próprias custas."
FAMÍLIA
"Meu pai é verdureiro da Feira de São Joaquim. Minha mãe nunca estudou. Ela veio do interior, de Mutuípe, trabalhar em casa de família. Minha mãe sempre fez bolos, tortas maravilhosas. Meu pai sempre trabalhou com comércio, venda de frutas e verduras. Ele comprava quilos de revistas, jornais e livros para embalar as frutas e lascava tudo sem ler. Eu pedia: "painho, lasque não!", e separava pilhas de jornais. Meu irmão ajudava na venda, pesava farinha, ficava no caixa. E eu só dava prejuízo..."
INFANCIA
"Fui criada em São Caetano. Brinquei muito de rua. Depois, comecei a dar banca. Eu tinha a maior biblioteca de São Caetano, na época. A igreja me ajudou a me levar. A vida para mim girava em torno de São Caetano até os 14 anos. Eu ia para a praia e voltava, não conseguia dialogar com a cidade. Foi Frei Calixto, lá da igreja, que apresentou a cidade. Ele realmente me ajudou, literamente me pegou pela mão e a gente visitava igrejas, museus. Aí, lá eu pegava um panfletinho, via um cartaz e pronto, outro mundo se abria..."
CARREIRA
"Nunca fiz comédia. Durante sete anos, só fiz personagens da década de 50 para cá, sérias, sofredoras, porque eu adoro chorar. Será que eu tenho cara de mulher sofredora? (risos). Shopping and fucking foi o ponto de mudança. Já tinha um toque de humor. As pessoas disseram que nunca me imaginavam fazendo aquilo. Que massa! Era justamente o que eu queria!"
JOANA D' ARC
"Existem guerras justas e meios justos. Todo mundo que me conhece de fato e me acha agressiva, sabe que eu só uso a frente. Eu beiro a ingenuidade, às vezes. De mim você não pode esperar uma facada. A Joana D´Arc ganha e depois perde a guerra por causa disso. Ela é uma menina de 17 anos que ouve vozes e não tem estratégia. Ela só anda em linha reta. E ninguém estava esperando que alguém viesse de frente com tudo. Ela conquista Orleans, Reims, só que depois cai. O estandarte dela era todo branco. Ela não tinha nenhuma insígnia ou bandeira. É exatamente por isso que está aberta a tantas leituras: é uma batalha de energia e força que abre caminhos"
DESABAFO
"Às vezes, acho que perco meu tempo assistindo teatro. Não sou mais uma espectadora muito frequente, pois me decepciono muito com o que vejo, e não gosto de muita coisa. Começo a ver que as pessoas estão jogadas aí, estão aprendendo com elas mesmas, à propria sorte. A chance que você tem de ser bom é que você chupou de alguém. É a mimesis e desde Aristóteles (447 a.C. - 385 a.C.) isso não é segredo... Por isso, Martim Gonçalves misturava atores experientes com novatos: para não se ficar inventando tudo do zero. Tem gente com talento para caramba repetindo erros, e se atuassem dois dias com ator experiente certamente aprenderiam muito".
Terça-feira, Fevereiro 17, 2009
PARA COMPRAS PELO CORREIO
Serão cobrados: o valor do livro (promocional) R$ 30,00 + o custo da postagem. A ser depositado em conta do Banco do Brasil.
Segunda-feira, Fevereiro 16, 2009
Mais entrevistas... Literatura Clandestina
ENTREVISTA COM A ATRIZ E ESCRITORA JUSSILENE SANTANA
"A venda de livros no Brasil é uma via crucis... É muito difícil, o autor não recebe quase nada, a base é receber apenas 10% do valor do livro... O resto fica entre livraria, editora, comercian
tes, impostos... "(J.S.)
Por Elenilson Nascimento
Nome desta que na cena teatral de Salvador (*Prêmio Braskem de Melhor Atriz de 2004, na Bahia, pelo desempenho no espetáculo Budro), a simpaticíssima atriz/autora Jussilene Santana lançou recentemente o livro ”Impressões Modernas – Teatro e Jornalismo na Bahia”. Um dos pólos de suas investigações (*se debruçou nos jornais A Tarde e Diário de Notícias para as suas pesquisas) é a relação e a dinâmica entre a cena teatral na Bahia e a sua cobertura na imprensa, a configuração do espaço cênico no jornalismo baiano, as repercussões do modernismo teatral no estado e no país, as inovações editoriais ocorridas à época, a percepção de questões do teatro em moldes modernos e o surgimento de vozes/fontes que as representem na imprensa. Batemos um papo com a escritora.


